| Instalação s/t, Pré Nome, São Paulo, 2011 |
Este trabalho parte de uma
fotografia da série situações urbanas; onde uma margem pintada de preto
delimita a área de um suposto quadrado numa parede, sobreposto pela equivalente
área negativa de um outro quadrado, que interrompe as linhas de seu primeiro desenho,
como uma falha entre projeto e execução. Essa situação sofre um
deslocamento de contexto e é apresentada como instalação. A construção dessa
obra acontece em dois momentos, no primeiro um quadrado é desenhado precisamente
sobre a parede, depois, um ato de esforço físico: a
camada de reboco é extraída por marretadas, deixando exposta a estrutura de
tijolos que constitui a parede.
As situações urbanas, correspondem a
transformações em acontecimento, reconfiguram o comportamento social num
espaço público. É uma prática anônima. Há algumas situações passageiras, coisas
banais, como um amontoado de madeiras presas em blocos de concreto; caixas de
papelão dispostas em meio a passagem, que são utilizadas como dormitório (em
muitos casos); lanças de ferro, moldadas para que se adaptem nas quinas de
sacadas; garagens com grades deformadas, em função do espaço ocupado pelo
carro. Algo que não parece estar certo, muitas vezes se mostra como a
única maneira de existir, ou de ser mais normal. Viáveis às condições que o meio
impõe.
“A situação é,
concomitantemente, uma unidade de comportamento temporal. É feita de gestos
contidos no cenário de um momento. Gestos que são o produto do cenário e de si
mesmos. Produzem outras formas de cenário e de si mesmos.”[1]
Quando olhamos uma situação na rua, não percebemos
nossos próprios atos. As limitações, os desvios, os perigos e a segurança são
qualidades estampadas na própria arquitetura e na face do outro, sedutora ou
repulsiva. A percepção desse espaço público se dá numa esfera de trocas
inseguras, ameaçadoras... uma miséria invisível de tão transparente e próxima,
um mundo de representação e não um mundo real – por estar sendo filtrado pelos
vidros dos carros, ou pelos óculos escuros, que não permitem enxergar os olhos
- a verdade opaca e ofuscada por um ato lógico: estar de passagem.
[1] Apologia da
deriva: escritos situacionistas sobre a cidade / Internacional Situacionista;
Paola Berenstein Jacques, organização; Estela dos Santos Abreu, tradução. – Rio
de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. P. 62
