Quinta-feira, Novembro 24

ACTING OUT

[+ sobre]



Instalação s/t, Pré Nome,  São Paulo, 2011


Este trabalho parte de uma fotografia da série situações urbanas; onde uma margem pintada de preto delimita a área de um suposto quadrado numa parede, sobreposto pela equivalente área negativa de um outro quadrado, que interrompe as linhas de seu primeiro desenho, como uma falha entre projeto e execução. Essa situação sofre um deslocamento de contexto e é apresentada como instalação. A construção dessa obra acontece em dois momentos, no primeiro um quadrado é desenhado precisamente sobre a parede, depois, um ato de esforço físico: a camada de reboco é extraída por marretadas, deixando exposta a estrutura de tijolos que constitui a parede.

As situações urbanas, correspondem a transformações em acontecimento, reconfiguram o comportamento social num espaço público. É uma prática anônima. Há algumas situações passageiras, coisas banais, como um amontoado de madeiras presas em blocos de concreto; caixas de papelão dispostas em meio a passagem, que são utilizadas como dormitório (em muitos casos); lanças de ferro, moldadas para que se adaptem nas quinas de sacadas; garagens com grades deformadas, em função do espaço ocupado pelo carro. Algo que não parece estar certo, muitas vezes se mostra como a única maneira de existir, ou de ser mais normal. Viáveis às condições que o meio impõe.
“A situação é, concomitantemente, uma unidade de comportamento temporal. É feita de gestos contidos no cenário de um momento. Gestos que são o produto do cenário e de si mesmos. Produzem outras formas de cenário e de si mesmos.”[1]
Quando olhamos uma situação na rua, não percebemos nossos próprios atos. As limitações, os desvios, os perigos e a segurança são qualidades estampadas na própria arquitetura e na face do outro, sedutora ou repulsiva. A percepção desse espaço público se dá numa esfera de trocas inseguras, ameaçadoras... uma miséria invisível de tão transparente e próxima, um mundo de representação e não um mundo real – por estar sendo filtrado pelos vidros dos carros, ou pelos óculos escuros, que não permitem enxergar os olhos - a verdade opaca e ofuscada por um ato lógico: estar de passagem.

[1] Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade / Internacional Situacionista; Paola Berenstein Jacques, organização; Estela dos Santos Abreu, tradução. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. P. 62