Exposição Equilíbrio Instável, Estúdio Valongo, 2011, instalação de parede (detalhe), Gustavo Ferro
O fazer artístico neste início do novo
milênio desfruta de uma situação particular, esta produção que já nasceu na Pós
Contemporaneidade possui alguns benefícios e também certas desvantagens em
relação a arte precedente. O principal dos ganhos é que o leque de formas,
materiais e procedimentos são extremamente diversificados, praticamente inesgotáveis
em seu uso, e do mesmo modo, são tênues suas definições não existindo limites
muito claros entre os gêneros artísticos os quais se mostram indefinidos e
manipuláveis como o desenho, a fotografia, a escultura, a gravura, a pintura
etc. A desvantagem é que neste processo utópico de aproximação de arte e vida,
um observador desavisado ou não iniciado, sem nenhuma familiaridade na leitura
de obras de arte contemporânea, pode ser incapaz de reconhecer ou mesmo se
mostrar impossibilitado para identificar um objeto artístico como sendo arte, então este determinado espectador
pode estar em face a uma obra artística e mesmo assim não possuir a “chave”
para decodificar o que vê, inabilitado de reconhecer e desfrutar tal objeto
como sendo uma experiência artística.
Posto isto, me coloco aqui no sentido de
intermediar uma leitura parcial das obras de Nei Franclin e Gustavo Ferro. Um
aspecto que me atraiu ao me debruçar nesta empreitada é uma vontade construtiva
visivelmente expressa no trabalho de ambos. Sou adepto a atitudes edificantes
na arte, associadas a elocuções tais como; construir, agregar, somar, ... Isto
em oposição aos raciocínios que propõe desconstruir, fragmentar, diluir, ...
Apesar das especificidades das produções
individuais percebe-se nas obras destes artistas uma sintonia de afinidades
estéticas, principalmente ao nível das ideias e preferências no fazer
artístico. Ambos possuem identificações sob alguns aspectos, as quais permitem
uma sincronicidade na geração de conceitos relacionados à arte, isto favorece
um fértil campo para atuação individual mas de influência mútua que acaba
estabelecendo uma parceria no desempenho de trabalhos colaborativos,
notadamente nas linguagens de vídeo e de expressões sonoras. Ambos fazem uso de
materiais triviais, não artísticos, por vezes através da captura de
lixo/resíduo urbano como matéria prima, as obras possuem uma grande porosidade
nas linguagens híbridas, as quais resultam num misto de colagem, escultura,
fotografia, instalação, etc. Trafegam de maneira fluída e muito natural nestas
linguagens sem dilemas ou “encucações” que em outras épocas poderia advir. Nas
obras de ambos é perceptível o reconhecimento de um raciocínio formal o qual
denota uma intenção deliberada de estranhamento e uma sensação de incômodo.
Gustavo Ferro faz uso de objetos/coisas
constituídos de materiais variados, estes artefatos se mostram como são, sem
maquiagem, organizados e dispostos em arranjos de maneira poética e subjetiva,
onde é perceptível um norte advindo de uma ordem interna particular. Podemos
apreender um despojamento na manipulação das formas e dos elementos, no entanto
isto se mostra com um interesse por opções constituintes específicas.
Os trabalhos tridimensionais de Nei Franclin
são de escala reduzida, pequenas peças que num primeiro olhar assemelham-se a
maquetes – ele tem um interesse declarado na área da arquitetura –, mas também
é visível o aspecto pictórico presente nestes objetos. Nas “pinturas”, as quais
tive oportunidade de acompanhar o processo de produção, tem uma aparente
casualidade, o uso de suportes não artísticos favorecem esta impressão de
estranhamento.
Em ambos nota-se um improviso controlado,
nas obras se vê que eles administram o fluxo das idéias, concatenando-as com a
manipulação dos materiais com os quais tem afinidades, obtendo assim um
instigante resultado de tensão visual, onde é perceptível o que o próprio Nei
denominou como equilíbrio instável.
Sergio Niculitcheff
maio de 2011