Quarta-feira, Setembro 1

26-07-2010

[...]

Hoje\\ senti algo parecido com esta memória. Estava andando pelo bairro onde moro aqui em São Paulo, estava um tempo bom. Um sol ameno. Um pouco de sonolência e uma sensação descompromissada com a vida. Avistei uma vila, dessas que tem um portão na frente, tinha uma porta ao lado semi aberta e simplesmente entrei. Me senti muito bem/ era um lugar bem tranqüilo repleto de casinhas geminadas/ fui olhando uma por uma, cada uma com uma arquitetura específica e algumas – principalmente as de esquina – que me identifiquei muito. Virando em uma destas esquinas avistei um objeto que a algum tempo vêm tomando a minha atenção quando ando pelas ruas na cidade. É uma estrutura de metal, pintada em branco, que é usada para proteger arbustos/ geralmente elas tem três lados que envolvem a árvore, muitas vezes as impedindo de crescer para os lados. Esta estrutura estava deitada no chão, encostada na parede ao lado da garagem de uma casa/ toquei a campainha só para me certificar de que iriam jogar fora e então levei comigo.

29-07-2010

Hoje sonhei que podia voar, mas foi diferente dos outros sonhos/ que não tinha muito controle sobre isso. Meu irmão estava no sonho.

Parte importante do processo é o modo como as coisas vão sendo encontradas/ o estado de encontro fortuito das coisas.

“O que chamamos de forma? Uma unidade coerente, uma estrutura (entidade autônoma de dependências internas) que apresenta as características de um mundo: [...]. Na tradição filosófica materialista inaugurada por Epicuro e Lucrécio, os átomos caem paralelamente no vazio, seguindo uma leve inclinação. Se um desses átomos se desvia do curso, ele “provoca uma colisão [encontro fortuito] com o átomo vizinho e de colisão em colisão um engavetamento e o nascimento de um mundo“...”

“A forma pode ser definida como um encontro fortuito duradouro.”

(BOURRIAUD, Nicolas; Estética Relacional; p26, 27; São Paulo; Martins; 2009)

Existe uma atuação no mundo/ fazendo um paralelo/// como que se meu corpo nômade fosse este átomo que ‘desvia do curso’. Ando pela cidade. Geralmente quando andamos temos um destino em foco, um lugar a ser alcançado – percorrido pela distância e regido pelo tempo. Nestas andanças, caminhamos por vezes ao devaneio, instigado por imagens imaginárias/ ou que/ por vezes entram em sintonia com as imagens externas, acessadas pela visão nestes caminhos. O foco (destino) já não é mais tão preciso/ A necessidade parte de uma intuição a desvendar um caminho tangente/ entrar em um outro tempo, acessando uma percepção sensível sobre o que está a volta. Nestes desvios as direções parecem estar em sinergia para orientar encontros entre a imagem externa (mundo social) e as imagens internas (devaneio). E é esse encontro de imagens que chamo de ‘estado de encontro fortuito das coisas’.

Gustavo Ferro