Segunda-feira, Março 8

Poética da casa

Existem artistas plásticos que se realizam na construção das obras bidimensionais, tridimensionais ou instalações que ganham o espaço público ou se inserem em museus, galerias ou acervos de colecionadores. Há ainda os que não desprezam essa vertente, mas tornam a sua casa um espaço plástico permanente.

Gustavo Ferro concebe seu lar como uma reflexão aberta e em constante mutação de seu trabalho. A visita ao seu ateliê/moradia é um passo essencial para se ter uma visão mais ampla não do seu fazer plástico, mas da forma como ele visualiza o mundo e o plasma em obras.

O desenho, por exemplo, se faz presente em dezenas de cadernos que, se vistos no espaço em que são realizados, dialogam com as paredes diretamente pintadas ou com as obras coladas com fita adesiva em todos os cantos. A aparente dificuldade de isolar uma delas contribui para uma leitura mais rica do conjunto.

A maleta onde guarda um grupo significativo desses cadernos, ao ser aberta e perscrutada no espaço do ateliê, ganha uma dimensão interdisciplinar, pois a poética de sua construção se amplia quando se abre um caderno e se percebe o entorno. Isso é ainda mais significativo quando se sabe que cada um é geralmente feito em um dia.

Uma das linhas mais expressivas de criação do artista hoje está nos desenhos que executa com fita adesiva. Ao sobrepor várias delas, obtém efeitos próximos de uma aquarela e, ao desgrudá-las da parede, por exemplo, aparece uma espécie de monotipia associada a uma textura que guarda em si ainda um pouco da cola.

O ato de lidar com essa fita é um procedimento que pode ser ainda mais aprofundado, principalmente em alguns trabalhos em que a técnica surge mais limpa e adensada, como se fosse uma pintura a preencher o espaço. O material também se apresenta envolvendo mesas de cabeceira e outros objetos, com um grande potencial plástico.

A visão do ateliê aponta ainda para um símbolo que pode ser mais e melhor examinado: o dente. Oriundo de uma família de odontólogos, Ferro possui memórias íntimas que podem gerar uma discussão dessa parte de nosso corpo sob uma perspectiva individual, mas de alcance universal.

A acumulação de materiais e de obras no espaço do ateliê impressiona – e as melhores composições ocorrem geralmente quando a poética do reunir cede espaço a um pensar mais conciso e revelador. Nesse sentido, os cadernos que tomam como ícone um avião amarelo desenhado possuem inegável força.

Visitar a casa/ateliê de Gustavo Ferro é um mergulho numa poética do espaço regida pela manifestação de diversos sonhos visuais. Cada um deles se expressa de uma maneira, compondo uma diversidade vicejante. Sai-se do local revigorado, pois ali a arte respira e se multiplica.

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).